sábado, 1 de novembro de 2014

A Rainha Viúva

Se eu fosse escrever um roteiro de cinema para esta história, a primeira cena deste filme  poderia mostrar um negro fujão ainda preso em suas algemas chegando exausto ao quilombo e, auxiliado pelos hábeis ferreiros que habitavam o lugar, se libertando das correntes. Na sequência estas mesmas correntes estariam na forja e seriam transformadas em armas e instrumentos de trabalho.  Foi deste jeito, usando os próprios objetos que os torturavam para produzir o que os defendia e alimentava, que Tereza de Benguela reinou por duas décadas, de 1750 a 1770, no quilombo do Quariterê, em Mato Grosso, na região do Vale Guaporé, que ficava próximo à fronteira de Mato Grosso com a Bolívia.

Tereza é famosa. Provavelmente africana nascida na angolana Benguela, ela é tema de teses, verbete de livros e já desfilou na avenida Marquês de Sapucaí levada pelo talento do genial Joãozinho Trinta, em 1994, na Viradouro. Pelo que parece, a forja era a própria mão de Teresa, mulher do chefe quilombola José Piolho que com a morte deste passou a comandar todo o quilombo. Por isso ganhou a alcunha de ‘rainha viúva’

Tereza era uma versão de saias do alagoano Zumbi dos Palmares. Ela não dava mole. Uma vez no Quariterê para sempre nele, pois as deserções eram punidas com a vida. Um desertor poderia por em risco a sobrevivência do quilombo, revelando seu posicionamento às autoridades.

Ela era a chefe política, militar e administrativa do agrupamento que contava com parlamento, conselho da rainha e um esquema de segurança que incluía troca de armamentos com os brancos. Segundo contam, a comunidade se auto-sustentava e ainda vendia tecidos e excedentes da produção agrícola fora do quilombo. 

Vinte anos resistindo ao poder colonial não era para qualquer um, muito menos para uma mulher. O Quariterê causava enormes prejuízos aos fazendeiros locais, pois a mão de obra estava afluindo com força para suas terras. Por motivos óbvios a cabeça de Tereza era muito bem vinda pelo governo local, que junto com
os donos de escravos patrocinou a bandeira chefiada por João Leme de Prado. Depois de percorrer por um mês Vila Bela, os 30 homens comandados por João Leme atacaram a comunidade de surpresa.

Muitos morreram, outros fugiram, mulheres foram violadas pelos bandeirantes e vários foram levados à cidade de Vila Bela para reconhecimento público. Depois de serem reconhecidos por seus donos foram surrados e marcados no rosto com ferro em brasa com a letra “F” de fugidos. A 'rainha viúva' foi capturada, mas preferindo a morte às humilhações que sofreria se matou ingerindo ervas venenosas.

O Quariterê devia ser algo muito especial, pois ali conviviam negros africanos, brasileiros, índios e mestiços de índios com negros numa rica fusão de culturas. Todos fugindo da exploração, dos maus tratos, do aprisionamento. Uma integração latino-americana necessária e buscada com avidez, mas até hoje rechaçada por muitos no Brasil. O samba da Viradouro destacou essa mistura.



“No seio de Mato Grosso, a festança começava/
Com o parlamento, a rainha negra governava/
Índios, caboclos e mestiços, numa civilização/
O sangue latino vem na miscigenação”

Este ano o foi sancionada a lei que elegeu o dia 25 de julho como o “Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra”. Um trecho da justificativa diz:

“No dia 25 de julho é celebrado anualmente o Dia Internacional de Luta da Mulher Negra da América Latina e do Caribe, entretanto o Brasil não tem uma data oficial de celebração da mulher negra, sendo importante termos em nosso calendário oficial de datas comemorativas um dia para homenagear a existência da mulher negra.

No entanto, é preciso criar um símbolo para a mulher negra, tal como existe o mito ZUMBI dos Palmares, as mulheres carecem de heroínas negras que reforcem o orgulho de sua raça e de sua história, de mulheres que sirvam de espelho para as batalhas cotidianas de cada mulher negra. Desta forma apresento, como forma de resgatar a memória de uma heroína negra negligenciada pela história, a homenagem à Tereza de Benguela”

Salve Tereza de Benguela!


Clique aqui e escute o samba da Viradouro de 1994
Clique aqui e leia a íntegra do Projeto de Lei do Senado Federal.
Fontes: Dicionário da Escravidão Negra no Brasil, Clóvis Moura.

2 comentários:

  1. sensacional, eu não conhecia a história dessa grande mulher. Me sinto muito orgulhosa,

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