sábado, 11 de outubro de 2014

Rosa Egipcíaca: A flor do Rio de Janeiro

Esta história é muito louca (alguns diriam no sentido literal!) e tão profunda em seus muitos significados que eu não teria jamais a pretensão de esgotá-la, como, aliás, não tenho com nenhuma outra. Aqui está apenas o meu olhar. E esse olho hoje bateu na negra que em 1725 desembarcou de um tumbeiro ainda criança no porto do Rio de Janeiro. Além de escrava, ela foi prostituta, beata, embusteira (o famoso 171 na gíria de hoje), aprendiz de santa, escritora e, finalmente, mais uma simples mulher negra que sofreu descrédito e anos de castigos físicos violentíssimos.

Rosa é autora de ‘Sagrada Teologia do Amor Divino das Almas Peregrinas’, o livro mais antigo escrito por uma mulher negra no Brasil. E não fosse por mais nada, por este fato lhe rendo minhas homenagens.

Acontece que Rosa saiu da Costa da Mina com mais ou menos seis anos e ficou no Rio até seus 14 anos, quando foi levada para Minas Gerais pelas mãos do frei José da Santa Rita Durão, aquele mesmo poeta que escreveu ‘Caramuru’ e é considerado um dos precursores do indianismo no Brasil. Em Minas, Rosa se tornou prostituta e pelo visto obteve sucesso na carreira, pois aos 30 anos resolveu vender todas as jóias e roupas conquistadas e doá-las aos pobres. Fez isso depois que foi acometida por uma estranha doença que fazia seu rosto inchar, sentir dores e tumores no estômago. Tudo isso junto com uma coisa que, mais uma vez, faz minha imaginação voar. 

Pensem numa mulher negra, no século 18, prostituta, que começa a ter visões místicas com Nossa Senhora da Conceição? A força das visões tirou Rosa da “profissão mais antiga do mundo”, fazendo dela uma ex-prostituta (sim, isto existe), para torná-la beata, frequentadora assídua dos sermões, missas e ofícios, onde conheceu o padre Francisco Gonçalves Lopes, conhecido pela singela alcunha de ‘Xota-Diabos’. Ele era um exorcista e Rosa se dizia possuída por sete demônios. 
Nossa Senhora da Conceição,
pelo pintor espanhol
Estéban Murillo.


Na primeira seção de exorcismo, segundo o que está no livro de Luiz Mott (ver referências no final) ela caiu desmaiada “partindo a cabeça na pedra debaixo do altar de São Benedito". Mas não poderia ficar só nisso, não é mesmo? Rosa foi presa e supliciada no pelourinho da cidade de Mariana. Os castigos foram tão “leves”, que deixaram seu lado direito todo paralisado para o resto da vida, mas não parou por aí. Após ser levada ao Bispo e não passar em testes que incluíam resistir por cinco minutos à chama de uma vela foi considerada embusteira e passou a ser chamada de feiticeira. 

Ajudada pelo padre Francisco (estou resistindo em chamá-lo de Padre Xota), ela fugiu para o Rio de Janeiro onde confessou ter visões de Nossa Senhora da Conceição, no céu, recebendo revelações de uma fonte de água milagrosa. Pronto. Os franciscanos se impressionaram com os relatos, ela passou a frequentar o Convento de Santo Antônio (ali mesmo, no Largo da Carioca) e eles passaram a chamá-la de “a Flor do Rio de Janeiro”... mais a vida ensinaria que nem tudo são flores. Já veremos.
Os franciscanos pensaram numa coisa que hoje poderíamos chamar de ‘marketing religioso’, pois a igreja Católica estava procurando um modelo de santidade para a população negra e quem sabe Rosa não seria e santa que traria mais fiéis entre os pretos? Deram-lhe um nome pomposo – ‘Rosa Maria Egipcíaca de Vera Cuz’ – que remetia a Santa Maria Egípcia, que também teria sido prostituta.

Rosa tratou de aproveitar seu momento de glória. Por visão celestial, Nossa Senhora “obrigou-a” a aprender a ler e escrever, o que ela fez rapidamente e pôs mãos à obra para por no papel as 250 páginas de suas visões. Passou a ser chamada 'Madre Rosa' e também por inspiração divina fundou o Recolhimento Nossa Senhora do Parto, que abrigava “moças desencaminhadas” e “mulheres da vida”. Ficou famosa, mas também exigente.


O mar de rosas (ou de Rosa) findaria quando ela começou a discutir com o clero carioca, pois achava que eles davam maus exemplos, falando demais e desrespeitosamente durante o culto. Pelo mesmo motivo retirou à força da igreja de Santo Antônio uma dama da sociedade, foi denunciada ao Bispo, presa e mandada para Lisboa junto com o padre ‘Xota-Diabos” para ser ouvida pelo Santo Ofício de Lisboa. Uma vez lá ela insistiu em reafirmar as visões. O padre declarou ter sido enganado de boa-fé pela falsidade da negra e recebeu como pena o degredo de cinco anos no sul do Algarve. E ela...bem, o processo se encerra inexplicavelmente m 4 de julho de 1765 e os historiadores levantam a hipótese de que morreu incógnita nas masmorras da Inquisição.


Madre Rosa Maria Egipcíaca de Vera Cruz é ‘Flor do Rio de Janeiro’... e flor da cor!


Referências: 

MOTT, Luiz. Rosa Egipcíaca: Uma Santa Africana no Brasil
GUIMARÃES, Rosely Santos. Corpo Negro: Entre a história e a ficção. O caso de Rosa Maria Egipcíaca de Vera Cruz.

2 comentários:

  1. Uma historia fascinante e cheia de enredos, tragédias e sub tragédias inesperadas. Digna de ser lida e relida para sua maior compreensão as vezes que seja necessário. Repita a doses Eliana, seu blog promete e muito!!!.

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